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Movimento

Este é o momento em que ele começa a ver a figura. Enquanto a vê, descobre por que está ali.

_ Esplêndida!

Esplêndida. Um lago entre duas terras. Terra de gramado, de um lado, e uma casa, do outro.

Uma pequena cerca na terra com gramado. Duas pessoas separadas pela cerca. Uma prosa. 

Formigas, em algum lugar.

Esplêndida é a figura pendurada na parede da bisavó.

Este é o momento em que ele começa a ver a figura. Enquanto a vê, descobre por que está ali.

…um macaco de pelúcia sobre uma estante, o único móvel do enorme vestíbulo. Quem se acerca do móvel, com passos rápidos e sapatos de bailarina, é uma menina que tem fartos cabelos presos, com dificuldade, pela presilha.

Senta-se a dois metros da estante. Três, talvez.

Tem um olhar fixo e tranqüilo. É dirigido ao macaco, que responde com o brilho das bolinhas de plástico lá de sua cavidade ocular de pano.

Eu que vejo, assim, a imagem da menina e do macaco, fico a me perguntar o que que se passa.

A menina, a estante, o macaco.

Cai uma folha de papel pequenina.

A menina movimenta-se.

Não sei, ao certo, de onde vem o papel e nem o sopro que o fez cair da estante ao chão.

Estende a mão para o papel. Levanta-o ao ar e imobiliza-o. Mão, papel, no ar.

O que observo são alguns raios de sol, que entram pelo teto transparente, trazendo luz de fundo ao par mão/papel, paralisado no ar.

Então, um sopro barulhento do vento do leste. Então, o barulho que vai tomando modos de voz.

A voz lê o rabisco do papel da menina-estátua:

O não haver encerra no não haver. Tal é a lógica humana.

Cai o papel, levemente, no assoalho.

Não entendo.

A menina olha, novamente, para o macaco do olhar plástico. Parece tranqüila.

Ela se levanta.

A voz não está mais no vestíbulo.

Passo a reação da vez a alguns tiques antigos. Faço algumas caretas.

Olha para mim.

Aquela que narra não pode ser vista, logicamente. Assusto-me tanto que os olhos arregalados parecem não caber no rosto.

Não suporto o que vejo. Fujo com os olhos grandes, pousando-os sobre a estante.

Ela se aproxima. Conta-me um segredo no pé do ouvido que não tinha ficado grande.

Parte da história, és.  

Ora, a fé é a certeza de cousas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem. (Hebreus, 11)

A menina passa a cantarolar. Saltita até a escadaria. Vira-se para mim. Em seu semblante, vejo um quê de satisfação:

Eu não te disse? Sempre estive aqui. Sempre esteve aí.

Porque Ele

Porque Ele trouxe luz a cavernas escuras.

Porque Ele viu a beleza da água; e a água estava por toda a parte.

Porque Ele não enviou seus filhos a abrigos humanos.

Porque Ele mostrou a fragrância nunca vendida, em prateleiras que não eram para serem vistas.

 

Porque Ele caminhou enquanto nós caminhamos.

 
                                                                               …

                                                                                       …

                                                                                               …

 

                                                                 Porque Ele esteve lá.

                                                                 Amor permanente.

                                                               Amor permanentemente misterioso.

  

 

É o que parece.

Parece e parece muito. Há tanta incerteza em parecer.

Parece que partiram alguns, parece que partirão outros. Parece que tudo começa a mudar e não se sabe para onde.

Todos mudam ao mesmo tempo. A imagem que vem está carregada de malas; e algumas não têm alças.

Ora são cruzeiros ao Atlântico, ora é vizinho dizendo que comprou uma nova casa.

_ A outra era boa por demais, mas comprei uma casa. Quem não compra?

Muda tudo.

E, de fato, tinham alguns laços feitos com renda amarela e verde.

Sabe o laço que sempre esteve lá, ao redor da casa velha, e que todo mundo viu, mas viu mais quando foi rompido?

Pergunta comprida. É para ver bem.

Build

Possuía, em mãos, o que em metáforas de vida não pôde dizer. Buscava o brincador interno que, escondido estava, por trás de olhos parcos em vitalidade. Não era a íris da poesia, nem o sabor dos floreios, que faltava. Não se sabe o que tinha em mãos. Sabe-se apenas do ocorrido: o perceber da vida e seu sabor flutuavam feito avião de papel ao vento.

_ Flutua, metáfora! Flutua, como vida! A metáfora está onde a vida flutua! - bem perto do ouvido, disse-lhe a outra águia.

_Cansa a falta de metáforas. Cansar ser, mas não estar. - baixo era o tom de seu som.

No ímpeto próprio da desistência, despertou, de súbito, o som já adormecido. Esbravejou à outra águia:

_ Dize, pois, o que quero! Meu querer é teu ditado!

_ Tendes, tu, espírito de porco?

_ Se assim o diz. - o som, novamente, baixo. Como em conversa de rato.

_ Tendes, tu, catacumbas nas asas?

_ Se assim o diz.

_ Ressentis, tu, do ditado?

_ Se assim o diz.

Menino da cara de mar,

 

quero saber onde é que o sol se põe. Dizem que é lá o lugar onde você pára de correr.

É que, nesse frio, o sol dá alento.

Porém, bem sei que você odeia tudo que dá alento.

Já diziam os filósofos do ódio: o amor tem muitas caras. Você, que tanto corre, deve saber em que medida o ódio corre.

 

A narradora.

Caro Rui,

 

eu escreveria uma música para você tocar no seu ritmo. Porém, assim como seu estômago tem revirado, minha musicalidade não encontra papel que sirva de apoio.

Todavia, peço que cante. Oro para que cante.

Sei que seu estômago dá voltas. E que o canto sofre interferência de Neozines, de Tegretóis, de…

Sabe o que mais sei?

Que você foi. Foi e, de todo modo, ficou. E como poderia algo silenciar o canto de quem vai, mas fica?

A respeito do cálice que falta, da gruta que você não conheceu - como vim a saber - informo que tais são mantidos sob a guarda da moça dos cabelos negros.  São guardados porque todo aquele que vai, volta, como tudo que sobe, desce.

Souberam que os homens de branco remediavam, por isso levaram você até eles.

_ E o que mais? E o que mais fazem? - perguntas que suponho que qualquer sujeito faça.

Eu bem que gostaria de saber.

Sei que eles não fazem aquela música que a moça dos cachos negros canta. Ela que tinha a letra. Qual era mesmo? Não a tenho aqui.

 

Nalim.

 

 

 

XVI. Cara de mar

Tinha um menino, com cara de mar, que costumava procurar onde era a terra de morar. Fazia rimas e corria como Papaléguas, porque rimar e correr - todo mundo sabe! - é fazer o caminho de casa.

Trilhar o caminho significa deixar cair algumas moedas.

_ Recuperá-las-ei! - dizia, então.

O menino corria como correm os meninos com cara de mar. Alcançava um outro, cujo nome não se sabe, dava-lhe alguns socos - outrora pontapés - e retirava-lhe qualquer moeda que tivesse. Pausadamente correndo; assim mesmo.

_ Eita, menino! - um coro de gente grande dizia.

Corria.

Nem se podia saber quantas moedas tinha. O máximo que podia escutar era a voz, ao fundo, de Alguém bem além:

_ Não vá tão longe. Corra onde possa ser visto.

O menino com cara de mar parecia correnteza.

Não perdeu a rima que à sorte deu.

Perdeu algumas moedas que pelo sangue retomou.

A casa não encontrou.

A voz, auscultou.

_ Durma bem. - era a deixa da voz. O dia de hoje foi ruim. Amanhã, não se sabe. Também o dia é mar.

...corre...

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