…um macaco de pelúcia sobre uma estante, o único móvel do enorme vestíbulo. Quem se acerca do móvel, com passos rápidos e sapatos de bailarina, é uma menina que tem fartos cabelos presos, com dificuldade, pela presilha.
Senta-se a dois metros da estante. Três, talvez.
Tem um olhar fixo e tranqüilo. É dirigido ao macaco, que responde com o brilho das bolinhas de plástico lá de sua cavidade ocular de pano.
Eu que vejo, assim, a imagem da menina e do macaco, fico a me perguntar o que que se passa.
A menina, a estante, o macaco.
Cai uma folha de papel pequenina.
A menina movimenta-se.
Não sei, ao certo, de onde vem o papel e nem o sopro que o fez cair da estante ao chão.
Estende a mão para o papel. Levanta-o ao ar e imobiliza-o. Mão, papel, no ar.
O que observo são alguns raios de sol, que entram pelo teto transparente, trazendo luz de fundo ao par mão/papel, paralisado no ar.
Então, um sopro barulhento do vento do leste. Então, o barulho que vai tomando modos de voz.
A voz lê o rabisco do papel da menina-estátua:
O não haver encerra no não haver. Tal é a lógica humana.
Cai o papel, levemente, no assoalho.
Não entendo.
A menina olha, novamente, para o macaco do olhar plástico. Parece tranqüila.
Ela se levanta.
A voz não está mais no vestíbulo.
Passo a reação da vez a alguns tiques antigos. Faço algumas caretas.
Olha para mim.
Aquela que narra não pode ser vista, logicamente. Assusto-me tanto que os olhos arregalados parecem não caber no rosto.
Não suporto o que vejo. Fujo com os olhos grandes, pousando-os sobre a estante.
Ela se aproxima. Conta-me um segredo no pé do ouvido que não tinha ficado grande.
Parte da história, és.
…
Ora, a fé é a certeza de cousas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem. (Hebreus, 11)
A menina passa a cantarolar. Saltita até a escadaria. Vira-se para mim. Em seu semblante, vejo um quê de satisfação:
Eu não te disse? Sempre estive aqui. Sempre esteve aí.