Sala de parto
Dezembro 4, 2007 de mirianne
A maternidade estava às moscas. Ninguém nascia; cesariana, normal, a fórceps ou sem. E, enquanto ouvia as moscas papeando, veio-me a imagem de um grande “0,5″ vermelho em uma folha de prova de Biologia. Ri sozinha, discretamente, para não interromper a prosa das moscas. É que certo professor deu tanto pitaco sobre certa questão que tomou a liberdade de ceder meio ponto da prova para si mesmo. Nenhum filho, nem um ponto.
Correu o tempo a passos largos e, de parto em parto, de laqueadura grátis negada pelo SUS a uma mãe - com três filhos esperando em casa o próximo da fila - à lágrima alegre de outra mãe, a vida parecia mais viva. E a morte dos natimortos mais morta. E viva.
Foi o Yalom que contou que Montaigne acreditava que morar com a janela bem de frente a um cemitério mantinha clareza e prioridades na vida em perspectiva. Mas a quintessência da morte morreu e todo mundo sabe.
E o Cabral - governador do Rio de Janeiro, que a Época disse que era o novo Cabral que o Brasil descobriu - avalia que tem que incitar uma discussão em torno da legalização do aborto enquanto medida preventiva para crimes. Vai abrir a discussão para laqueaduras grátis também?
A família aguardava a lágrima sorridente e vermelha de sangue de parto normal da mãe, lá na r(d)ecepção SUS. Acolhia, chorava, ria, babava, despencava o queixo. O pai, babão, passava extasiado pela porta da sala de parto, com uma bolsa onde caberiam três do seu bebê. Ela nascia. E tinha a graça Natália, porque Natália andaria por Natal. Natal do Rio do Norte, Natal do menino Jesus que nasceu também.
Nasceu, dias depois, o Adriano, que tinha um coração que batia de um jeito estranho. Com dez dias, morreu e um menininho inquiriu se a Ana podia trazer o sobrinho dele de volta, porque estava com saudade. Ele, de repente gigante nos seus oito anos de idade, estava muito bravo porque o Adriano podia agarrar a mão de sua irmã e porque ele até tinha dado um sorrisinho, num bercinho de hospital. Tudo muito “inho”.
Era um príncipe, feito Pequeno Príncipe, que veio, cumpriu sua missão e foi embora. Ana, que não era Super, não podia trazê-lo de volta de forma alguma e também não sabia se havia festas de aniversário no céu, mas ele agarrou a mão da Supermammy e era tão vivo que a vida foi mais viva e, de novo, mais morta. Disso, todo mundo sabe.